Beach Billiard (ou reflexões sobre a areia)

Durante décadas, todo clube de respeito do interior do Rio Grande do Sul esburacava o seu campo de jogo antes das partidas contra Internacional ou Grêmio. Não se trata de lenda. É um fato que qualquer jornalista do interior comprovará.

A filosofia por trás do esburacamento é simples: «em campo cheio de buraco não há futebol, e se nós, jogadores grossos, não jogamos nada, os medalhões da capital também não jogarão, custe o que custar».

Assim sendo, os buracos e a areia invariavelmente DESTRUÍAM o jogo. E isso é ruim, certo? Certo? Claro que é ruim: a bola não rola de forma certa e os jogadores ficam preocupados em não pisar em buracos. Resumidamente: buraco destrói o futebol. E muitos jornalistas concordariam comigo e seriam contra os buracos e a areia. Qualquer repórter, quando solicitado sobre as condições do gramado, choraminga dizendo que há muitos buracos no campo.

Só que, ao mesmo tempo, esses jornalistas que condenam os buracos dos estádios do interior respeitam essa bizarrice chamada Beach Soccer, que nada mais é do uma espécie de Futebol de Areia. Todo mundo se revolta contra os gramados esburacados, mas aceitam serenamente uma idiotice tremenda que é o Futebol de Praia, que é praticado num local que SÓ TEM BURACO! Ah sim, um jogo num gramado que tem aqui ou ali um buraco é ruim, mas o futebol praticado num terreno onde só tem buraco e nada mais é visto como bacana.

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Jogar bola na areia da praia é uma coisa. Hipoteticamente, eu e meus amigos estamos na praia e somos fanáticos por futebol. Nossa vontade de jogar é tanta que, mesmo não estando na melhor das superfícies, encaramos o desafio e até, quem sabe, nos divertimos. Ou seja, jogar na areia é uma CONTINGÊNCIA de quem quer muito jogar bola na praia. Mas o Beach Soccer transforma a areia, o terreno mais ingrato do mundo, em FUNDAMENTO do esporte. O sujeito que pratica o Beach Soccer é o idiota que olha uma bola de futebol e diz: «eu jogo, mas só se debaixo dos meus pés estiver a areia; sim, a areia, aquele terreno onde é difícil até mesmo caminhar!»

Não considero idiota um rapaz qualquer que bata bola na praia. Mas já o atleta (?) que só joga bola se a partida for jogada sobre a areia é uma mula. «Mas o Beach Soccer exige que o jogador desenvolva outras habilidades…», dirão alguns. E daí? Um possível Bilhar na Areia, ou Beach Billiard, também, e seria patético. Aliás, alguém já pensou em Beach Billiard, o Bilhar em uma mesa cheia de areia e onde as bolas não rolam? E se criarem, a Globo transmitirá a Copa do Mundo, desde que o Brasil ganhe.

Politicamente incorreto, futebolisticamente perfeito

Logo após a partida do Mineirão, o treinador (Ênio Andrade) optou por permanecer em Belo Horizonte, enclausurado na Toca da Raposa. Assim, longe tanto da euforia que tomava conta de Curitiba como do clima de decisão vivido no Rio de Janeiro, Ênio pôde elaborar uma tática original para acalmar seus jogadores: menosprezar completamente o adversário. Ao passar para o grupo o teipe de uma partida do Bangu, o técnico desligou o aparelho no meio da fita e dispensou todo mundo. “Esse time é muito ruim”, comentou, desdenhoso.

Revista Placar, novembro de 1993.

Isso foi no tempo que os treinadores ousavam achar que seus times eram melhores que os adversários. O Coritiba de Ênio Andrade foi campeão, obviamente.

Ênio Andrade

Ênio Andrade tirando um Slayer na viola. "Angel of Death sempre foi uma das minhas preferidas, mas os solos são meio complicados e eu às vezes erro", disse certa vez.

Meio-campo de 82, um estudo dialético e/ou uma análise petulante do que veio depois

Era uma vez um meio-campo: Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Se fizéssemos, baseados no senso-comum, e não na minha opinião,1 um gradiente de qualidade de marcação e apoio, teríamos o seguinte:

Cerezo: muita marcação e uma boa saída de bola.

Falcão: muita marcação e excelente saída de bola.

Sócrates: péssima marcação e excelente saída de bola.

Zico: marcação nula e exuberante saída de bola.

Imaginemos agora que o futebol brasileiro e o futebol europeu tivesse ambos esse mesmo meio-campo como modelo, e, partindo de 1982, o Brasil e a Europa tomassem caminhos diferentes para a adaptação desse meio-campo às novas exigências do futebol.

O caminho europeu, ou Um pulmão para Dom Quixote e um cérebro para Sancho

O caminho da Europa nós sabemos bem. É sempre criticado pela imprensa brasileira: retirada dos jogadores mais «plásticos». e a devida colocação de jogadores que marquem melhor. Assim sendo, hipoteticamente a Europa mudaria o M82 da segunte forma: sairia um jogador mais «genial» e de pouca marcação, Sócrates,1 e entraria e entraria em seu lugar «outro Falcão», ficando Cerezo, Falcão, Falcão e Zico. Zico seria o único solto, como Platini na Juventus que, em meados dos anos 80, tinha Bonini correndo por todos. Mas o tempo passa. A briga no meio-campo aumenta e mais marcação no meio se torna fundamental. E a Europa avança no mesmo caminho de antes: tira um «exuberante» e em seu lugar coloca um excelente jogador com características de marcação. Temos então o meio-campo Cerezo, Cerezo, Falcão, Falcão. Não tem gênio, mas não tem grosso.

Esse pensamento vai terminar no meio-campo do Liverpool de Mascherano, Gerrard, Alonso, Lucas etc.; são todos eles marcadores, mas todos saem jogando. Ou o Arsenal de Wenger, com Eboué, Flamini, Fabregas etc. Tem algum Zico ou Sócrates? Não. Mas tem algum grosso? Também não, e exatamente por isso a coisa anda bem. É bom lembrar que o Liverpool faz isso desde o time campeoníssimo das décadas de 70/80. Para conhecer a história, aqui há um bom resumo daquele time que é padrão para muitos times de hoje.

Em resumo, o meio-campo europeu dá limites à hiperatividade do meia, mas, ao mesmo tempo, qualifica este mesmo meio-campo com jogadores que poderiam muito bem funcionar como meias.

O caminho brasileiro, ou Todo Dom Quixote precisa de um Sancho, e Todo Didi precisa do seu Dedé

O caminho do Brasil, visivelmente oposto, deixou à época todos satisfeitos. Imaginou-se que tirando Cerezo e/ou Falcão, e substituindo-os por jogadores mais «pegadores», obteria-se um futebol moderno. Esse caminho contrário ao da Europa tem explicação: há no Brasil uma idolatria à genialidade individual. Não se sente nenhuma culpa por tirar Cerezo e colocar o Dunga, desde que o Zico e o Sócrates fiquem no time sem função alguma de marcação. O pensamento futebolístico brasileiro é perfeitamente aristocrático, já que se admite que alguns corram para que outros, os gênios, possam criar. E seguindo esse pensamento, o futebol brasileiro passou a trocar todo centro-médio (Cerezo) por um Dunga, que é, na prática, um «zagueiro de meio-campo». Tudo é possível, pensaram em fins de 80, desde que deixem o Zico e o Sócrates sem função alguma de marcação.

Mais tarde acontece o óbvio. Falcão também é substituído por outro «pegador», Mauro Silva.2 Mas tudo bem, desde que não se toque nos gênios. E onde a coisa dá errado? Porque o caminho do Brasil, que optou por jogar com dois brucutus e dois craques no meio-campo, não está mais dando certo.

A questão é de preparação física. Os hipotéticos Zico e Sócrates já não têm capacidade de vencer as marcações. Por mais geniais que sejam, não conseguem mais ter espaço que necessitam. E o que os filósofos brasileiros pensam: tirar o Sócrates e colocar mais um zagueiro de meio-campo, como por exemplo o Josué, para deixar o Zico ainda mais solto. Só que Zico não fica mais solto; fica, evidentemente, mais sobrecarregado, afinal de contas atrás dele não há apoiadores, mas sim atrapalhadores, trogloditas.

Vejam bem: não foi um pensamento puramente defensivo dos treinadores que embruteceu o meio-campo do Brasil. Foi em grande parte o louvor ao craque, pois uma coisa é certa: os espaços ficaram menores. A Europa iniciou um caminho que deve chegar a um meio-campo em que os quatro jogadores sejam todos nota 7 em marcação e nota 7 em apoio. Quatro homens no meio-campo com nota 7, temos nota 28 na marcação e no apoio. Ao passo que o Brasil foi para o caminho do Apartheid: dois jogadores são nota 10 na marcação e nota 2 no apoio; e dois jogadores são nota 10 no apoio e nota 2 na marcação. Ilustrando, há um meio-campo nota 24 e um nota 28. E quem tem mais pontos é quem não tem os «gênios».

Em resumo, o meia brasileiro vai cada vez mais pelo caminho da loucura genial quixotesca, mas para isso precisa, na mesma proporção, de um Sancho que o salve o tempo todo. Para que a piada do meio-campo brasileiro funcione, a existência do Dedé sem graça é fundamental.

Apartheid

Diferente do meio-campo do Milan da era Sacchi/Capello (Ancelotti, Rijkaard, Evani, Colombo, Albertini etc.), onde todos jogavam (eficientemente) e marcavam (competentemente), o Brasil foi para um meio-campo de segregação: dois volantes brucutus e dois meia-armadores geniais que não marcam nem consulta no médico. Assim os dois volantes não falam a mesma língua dos meias; e os meias não ajudam os volantes. Não é uma crítica por eles não se falarem. Durante décadas o futebol brasileiro confiou na eficiência dos meias e atacantes, e o sucesso do futebol brasileiro não foi pequeno. O que mudou foi o espaço restrito. O futebol brasileiro tenta vencer a falta de espaço com supermeias, como Ronaldinho e Kaká, que estão mais para atacantes do que meias. Só que, para que esses joguem absolutamente soltos, a fim de romper a falta de espaço, eles precisam de babás que os sigam constantemente: os brucutus.

(Obs.: cabe aqui ressaltar que essa divisão entre volantes e meias surge nesse período, no início dos anos 90. Durante décadas, o volante foi assim chamado por jogar à frente da zaga, saindo de trás para o apoio. Volante era uma POSIÇÃO do meia; mas este era, antes de tudo, um meia, com a devida habilitação para jogar bola. Quanto mais se divide o volante do meia, pior para a articulação do time, pois cada vez mais o volante se identifica com o zagueiro, ao passo que o meia cada vez mais se assemelha ao atacante. E ninguém arma a equipe. Querem um exemplo? Brasil 06. O meio-campo do Brasil era, em tese, dividido entre 2 volantes e dois meias. O que não passa de uma falácia. O Brasil jogou sem meio-campo. Jogou com 6 na defesa: Cafú, Lúcio, Juan, Roberto Carlos, Émerson (Gilberto Silva) e Zé Roberto. E com 4 no ataque: Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo Travesti. Não é à toa que um time que jogou com um meio-campo com Makelele, Vieira, Ribery e Zidane tenha dado um banho de bola no Brasil. Sinceramente, só é surpresa ter sido apenas 1×0.)

Conclusão

Não é uma questão de mediocrizar o time. Este é o caminho europeu. E não é uma questão de empilhar pontas-de-lança no time. Este é o caminho Brasil 2006. O caminho é o que Falcão já pensava em fazer no meio dos anos 70. Falcão, dono ao mesmo tempo de refinada técnica e grande senso de marcação, decidiu, a fim de conseguir uma vaga na seleção de Brandão, recuar para a função de médio-volante. Não é uma questão de retirar o craque da armação, mas sim de qualificar uma posição mais recuada. Todos louvam Aragonés por conseguir um grande volante para a Espanha ao recuar o meio-campista Marcos Senna para a cabeça da área. Falcão já fez isso nos anos 70, e, antes dele, Dino Sani, que viria a ser treinador de Falcão, fez também. O futebol brasileiro avança os brucutus, numa vã ilusão de que armarão o time. Melhor seria se alguns meias tivessem a humildade para recuar.

Ignorando os mais chatos, e até mesmo as minhas preferências, o meio-campo de 82 era correto até o ponto em que alguma coisa pode ser correta no futebol. A alteração de Cerezo por Batista, defendida por muitos como salvadora, não mudaria nada, e é uma previsão do que viria no futebol brasileiro – embora Batista tenha sido um jogador muito bom, muito melhor que quase todos os volantes de hoje. E a alteração de Sócrates por Paulo Isidoro é a alteração que os europeus fizeram na seqüência da década. Assim, tanto o caminho europeu quanto o caminho brasileiro são caminhos perversores da norma; são ambos dissonâncias. Mas é inegável que a dissonância brasileira é mais irritante aos ouvidos que a dissonância que vem sendo praticada na Europa, e até mesmo na Argentina. Pelo menos por enquanto.

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1. Perdão, mas acho Sócrates tremendamente supervalorizado.

2. Lembro, nas eliminatórias para 94, quando o Parreira tirou o Luis Henrique e colocou o Mauro Silva. Foi a primeira vez que o Brasil jogou com dois zagueiros no meio-campo.