Era uma vez um meio-campo: Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Se fizéssemos, baseados no senso-comum, e não na minha opinião,1 um gradiente de qualidade de marcação e apoio, teríamos o seguinte:
Cerezo: muita marcação e uma boa saída de bola.
Falcão: muita marcação e excelente saída de bola.
Sócrates: péssima marcação e excelente saída de bola.
Zico: marcação nula e exuberante saída de bola.
Imaginemos agora que o futebol brasileiro e o futebol europeu tivesse ambos esse mesmo meio-campo como modelo, e, partindo de 1982, o Brasil e a Europa tomassem caminhos diferentes para a adaptação desse meio-campo às novas exigências do futebol.
O caminho europeu, ou Um pulmão para Dom Quixote e um cérebro para Sancho
O caminho da Europa nós sabemos bem. É sempre criticado pela imprensa brasileira: retirada dos jogadores mais «plásticos». e a devida colocação de jogadores que marquem melhor. Assim sendo, hipoteticamente a Europa mudaria o M82 da segunte forma: sairia um jogador mais «genial» e de pouca marcação, Sócrates,1 e entraria e entraria em seu lugar «outro Falcão», ficando Cerezo, Falcão, Falcão e Zico. Zico seria o único solto, como Platini na Juventus que, em meados dos anos 80, tinha Bonini correndo por todos. Mas o tempo passa. A briga no meio-campo aumenta e mais marcação no meio se torna fundamental. E a Europa avança no mesmo caminho de antes: tira um «exuberante» e em seu lugar coloca um excelente jogador com características de marcação. Temos então o meio-campo Cerezo, Cerezo, Falcão, Falcão. Não tem gênio, mas não tem grosso.
Esse pensamento vai terminar no meio-campo do Liverpool de Mascherano, Gerrard, Alonso, Lucas etc.; são todos eles marcadores, mas todos saem jogando. Ou o Arsenal de Wenger, com Eboué, Flamini, Fabregas etc. Tem algum Zico ou Sócrates? Não. Mas tem algum grosso? Também não, e exatamente por isso a coisa anda bem. É bom lembrar que o Liverpool faz isso desde o time campeoníssimo das décadas de 70/80. Para conhecer a história, aqui há um bom resumo daquele time que é padrão para muitos times de hoje.
Em resumo, o meio-campo europeu dá limites à hiperatividade do meia, mas, ao mesmo tempo, qualifica este mesmo meio-campo com jogadores que poderiam muito bem funcionar como meias.
O caminho brasileiro, ou Todo Dom Quixote precisa de um Sancho, e Todo Didi precisa do seu Dedé
O caminho do Brasil, visivelmente oposto, deixou à época todos satisfeitos. Imaginou-se que tirando Cerezo e/ou Falcão, e substituindo-os por jogadores mais «pegadores», obteria-se um futebol moderno. Esse caminho contrário ao da Europa tem explicação: há no Brasil uma idolatria à genialidade individual. Não se sente nenhuma culpa por tirar Cerezo e colocar o Dunga, desde que o Zico e o Sócrates fiquem no time sem função alguma de marcação. O pensamento futebolístico brasileiro é perfeitamente aristocrático, já que se admite que alguns corram para que outros, os gênios, possam criar. E seguindo esse pensamento, o futebol brasileiro passou a trocar todo centro-médio (Cerezo) por um Dunga, que é, na prática, um «zagueiro de meio-campo». Tudo é possível, pensaram em fins de 80, desde que deixem o Zico e o Sócrates sem função alguma de marcação.
Mais tarde acontece o óbvio. Falcão também é substituído por outro «pegador», Mauro Silva.2 Mas tudo bem, desde que não se toque nos gênios. E onde a coisa dá errado? Porque o caminho do Brasil, que optou por jogar com dois brucutus e dois craques no meio-campo, não está mais dando certo.
A questão é de preparação física. Os hipotéticos Zico e Sócrates já não têm capacidade de vencer as marcações. Por mais geniais que sejam, não conseguem mais ter espaço que necessitam. E o que os filósofos brasileiros pensam: tirar o Sócrates e colocar mais um zagueiro de meio-campo, como por exemplo o Josué, para deixar o Zico ainda mais solto. Só que Zico não fica mais solto; fica, evidentemente, mais sobrecarregado, afinal de contas atrás dele não há apoiadores, mas sim atrapalhadores, trogloditas.
Vejam bem: não foi um pensamento puramente defensivo dos treinadores que embruteceu o meio-campo do Brasil. Foi em grande parte o louvor ao craque, pois uma coisa é certa: os espaços ficaram menores. A Europa iniciou um caminho que deve chegar a um meio-campo em que os quatro jogadores sejam todos nota 7 em marcação e nota 7 em apoio. Quatro homens no meio-campo com nota 7, temos nota 28 na marcação e no apoio. Ao passo que o Brasil foi para o caminho do Apartheid: dois jogadores são nota 10 na marcação e nota 2 no apoio; e dois jogadores são nota 10 no apoio e nota 2 na marcação. Ilustrando, há um meio-campo nota 24 e um nota 28. E quem tem mais pontos é quem não tem os «gênios».
Em resumo, o meia brasileiro vai cada vez mais pelo caminho da loucura genial quixotesca, mas para isso precisa, na mesma proporção, de um Sancho que o salve o tempo todo. Para que a piada do meio-campo brasileiro funcione, a existência do Dedé sem graça é fundamental.
Apartheid
Diferente do meio-campo do Milan da era Sacchi/Capello (Ancelotti, Rijkaard, Evani, Colombo, Albertini etc.), onde todos jogavam (eficientemente) e marcavam (competentemente), o Brasil foi para um meio-campo de segregação: dois volantes brucutus e dois meia-armadores geniais que não marcam nem consulta no médico. Assim os dois volantes não falam a mesma língua dos meias; e os meias não ajudam os volantes. Não é uma crítica por eles não se falarem. Durante décadas o futebol brasileiro confiou na eficiência dos meias e atacantes, e o sucesso do futebol brasileiro não foi pequeno. O que mudou foi o espaço restrito. O futebol brasileiro tenta vencer a falta de espaço com supermeias, como Ronaldinho e Kaká, que estão mais para atacantes do que meias. Só que, para que esses joguem absolutamente soltos, a fim de romper a falta de espaço, eles precisam de babás que os sigam constantemente: os brucutus.
(Obs.: cabe aqui ressaltar que essa divisão entre volantes e meias surge nesse período, no início dos anos 90. Durante décadas, o volante foi assim chamado por jogar à frente da zaga, saindo de trás para o apoio. Volante era uma POSIÇÃO do meia; mas este era, antes de tudo, um meia, com a devida habilitação para jogar bola. Quanto mais se divide o volante do meia, pior para a articulação do time, pois cada vez mais o volante se identifica com o zagueiro, ao passo que o meia cada vez mais se assemelha ao atacante. E ninguém arma a equipe. Querem um exemplo? Brasil 06. O meio-campo do Brasil era, em tese, dividido entre 2 volantes e dois meias. O que não passa de uma falácia. O Brasil jogou sem meio-campo. Jogou com 6 na defesa: Cafú, Lúcio, Juan, Roberto Carlos, Émerson (Gilberto Silva) e Zé Roberto. E com 4 no ataque: Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo Travesti. Não é à toa que um time que jogou com um meio-campo com Makelele, Vieira, Ribery e Zidane tenha dado um banho de bola no Brasil. Sinceramente, só é surpresa ter sido apenas 1×0.)

Conclusão
Não é uma questão de mediocrizar o time. Este é o caminho europeu. E não é uma questão de empilhar pontas-de-lança no time. Este é o caminho Brasil 2006. O caminho é o que Falcão já pensava em fazer no meio dos anos 70. Falcão, dono ao mesmo tempo de refinada técnica e grande senso de marcação, decidiu, a fim de conseguir uma vaga na seleção de Brandão, recuar para a função de médio-volante. Não é uma questão de retirar o craque da armação, mas sim de qualificar uma posição mais recuada. Todos louvam Aragonés por conseguir um grande volante para a Espanha ao recuar o meio-campista Marcos Senna para a cabeça da área. Falcão já fez isso nos anos 70, e, antes dele, Dino Sani, que viria a ser treinador de Falcão, fez também. O futebol brasileiro avança os brucutus, numa vã ilusão de que armarão o time. Melhor seria se alguns meias tivessem a humildade para recuar.
Ignorando os mais chatos, e até mesmo as minhas preferências, o meio-campo de 82 era correto até o ponto em que alguma coisa pode ser correta no futebol. A alteração de Cerezo por Batista, defendida por muitos como salvadora, não mudaria nada, e é uma previsão do que viria no futebol brasileiro – embora Batista tenha sido um jogador muito bom, muito melhor que quase todos os volantes de hoje. E a alteração de Sócrates por Paulo Isidoro é a alteração que os europeus fizeram na seqüência da década. Assim, tanto o caminho europeu quanto o caminho brasileiro são caminhos perversores da norma; são ambos dissonâncias. Mas é inegável que a dissonância brasileira é mais irritante aos ouvidos que a dissonância que vem sendo praticada na Europa, e até mesmo na Argentina. Pelo menos por enquanto.
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1. Perdão, mas acho Sócrates tremendamente supervalorizado.
2. Lembro, nas eliminatórias para 94, quando o Parreira tirou o Luis Henrique e colocou o Mauro Silva. Foi a primeira vez que o Brasil jogou com dois zagueiros no meio-campo.